TEA: diagnóstico ao longo da vida e o que a ciência mostra hoje
Por Dra. Roberta Lara de Oliveira Borges
MÉDICA · CRM-GO 16006 · Psiquiatria RQE 11832 · Psiquiatria da Infância e Adolescência RQE 13317
Publicado em · 16 min de leitura
O autismo pode ser identificado em qualquer idade. Pesquisa publicada na Nature em 2025 indica que o TEA diagnosticado tardiamente tende a apresentar perfil desenvolvimental e genético parcialmente distinto do diagnosticado na primeira infância, com maior sobreposição com TDAH e condições de saúde mental. Camuflagem social e comorbidades tratadas isoladamente ajudam a explicar diagnósticos que só chegam na vida adulta.
Uma cena tem se repetido com frequência crescente nos consultórios de psiquiatria: uma mulher de 30 e poucos anos, com histórico de anos de tratamento para ansiedade e depressão, chega perguntando se pode ser autista. Às vezes é um adolescente que sempre foi descrito como "tímido" e passou a apresentar sofrimento importante no ensino médio. Às vezes é um pai que só formulou a pergunta sobre si mesmo depois que o filho recebeu o diagnóstico.
Por muito tempo, a leitura profissional dessas situações foi simples: seria o mesmo autismo de sempre, apenas detectado com atraso. A literatura mais recente sugere que a história pode ser mais complexa que isso — e as implicações clínicas são concretas.
Antes de seguir, um ponto que vale dizer logo: nada do que está descrito aqui permite chegar a um diagnóstico por conta própria. Os dados abaixo servem para entender por que a avaliação profissional importa, não para substituí-la.
O autismo diagnosticado na vida adulta é o mesmo da infância?
Um estudo publicado na Nature em 2025 abordou essa pergunta com dados genéticos de larga escala. Utilizando dados longitudinais de quatro coortes de nascimento independentes e coortes independentes de pessoas autistas, os autores encontraram que variantes genéticas comuns explicam cerca de 11% da variância no momento do diagnóstico — contribuição semelhante à de fatores sociodemográficos e clínicos individuais. Mais relevante, identificaram dois fatores poligênicos apenas modestamente correlacionados entre si (rg = 0,38; erro-padrão 0,07).
Um desses fatores associa-se a diagnóstico mais precoce e a menores habilidades sociais e de comunicação já na primeira infância, apresentando correlação apenas moderada com TDAH e condições de saúde mental. O outro associa-se a diagnóstico mais tardio e a aumento de dificuldades socioemocionais e comportamentais na adolescência, com correlações genéticas moderadas a altas com TDAH e condições de saúde mental.
É importante ler esse achado com cuidado. Trata-se de correlação genética em nível populacional, não de um teste aplicável a uma pessoa específica — não existe exame genético que diga se alguém pertence a um ou a outro "grupo". O que o estudo sustenta é uma afirmação mais modesta e ainda assim útil: o autismo identificado tardiamente tende a ter um perfil desenvolvimental parcialmente próprio, com trajetória que frequentemente se torna mais evidente quando as demandas sociais da adolescência aumentam.
Traduzindo para a consulta: não faz sentido descartar a hipótese diagnóstica apenas porque "não apareceu na infância". E há razão para investigar traços autistas em adolescentes e adultos que chegam com queixa principal de TDAH, depressão ou trauma.
Por que muitas mulheres só recebem o diagnóstico depois dos 30?
Aqui há um dado populacional particularmente informativo. Uma coorte nacional sueca publicada em 2025, incluindo todos os nascidos entre 1990 e 2015 que receberam diagnóstico clínico de autismo (N = 72.331), mostrou que 54,2% das mulheres autistas e 40,9% dos homens autistas receberam ao menos um diagnóstico psiquiátrico antes do diagnóstico de TEA. Os mais comuns: TDAH, ansiedade e depressão. As mulheres apresentaram maior chance que os homens para a maioria dos diagnósticos precedentes, e seguiram buscando cuidado para essas condições mesmo após o diagnóstico de autismo.
Esse é um mecanismo do atraso, medido em base populacional. A mulher autista frequentemente percorre o sistema de saúde mental sendo tratada por ansiedade, por depressão, por TDAH, antes que a hipótese do espectro seja formulada.
Vale sublinhar o que isso não significa. Não significa que esses diagnósticos anteriores estivessem errados, nem que os profissionais que os fizeram tenham falhado. Ansiedade, depressão e TDAH coexistem genuinamente com o TEA em taxas elevadas — o próprio estudo mostra que as pessoas continuam precisando de cuidado para essas condições depois do diagnóstico de autismo. O que os dados sugerem é que a apresentação clínica é variável e que condições sobrepostas podem retardar o reconhecimento do espectro. É um problema de complexidade do quadro, não de incompetência de quem atendeu antes.
A conduta que decorre disso: quando uma paciente chega com histórico de ansiedade ou depressão recorrente, com resposta apenas parcial a tratamentos bem conduzidos, esse histórico pode funcionar como sinal para ampliar a investigação, e não como explicação que encerra o caso.
Camuflagem social: só as mulheres se mascaram?
Essa é uma das crenças clínicas mais difundidas — e a evidência recente a matiza. Uma metanálise de 2026 com 50 estudos e 16.895 participantes, com idades entre 10 e 90 anos, encontrou associação moderada entre traços autistas e camuflagem (r = 0,34; IC 95%: 0,30–0,39), e essa associação foi comparável entre os sexos. A idade também não funcionou como moderador dentro da faixa estudada.
Dois achados dessa metanálise merecem atenção. Primeiro: a associação foi mais forte em amostras da população geral do que em pessoas com diagnóstico formal — um resultado compatível com a hipótese de que a camuflagem pode dificultar o processo diagnóstico, embora os próprios autores registrem que ainda é preciso testar por que isso ocorre. Segundo: entre os subdomínios, a assimilação (tentar se encaixar e parecer "normal") mostrou o efeito mais forte, seguida da compensação; o ato de ocultar traços foi o menos associado.
Sobre saúde mental, a leitura precisa ser cautelosa. A depressão apareceu como moderadora da relação, enquanto ansiedade e ansiedade social não; os autores, porém, resumem que a saúde mental não teve impacto claro sobre a associação global. Não é base suficiente para afirmar uma relação forte entre camuflagem e humor — é base suficiente apenas para justificar que humor seja avaliado, como já deveria ser em qualquer avaliação psiquiátrica.
Uma revisão sistemática integrativa de 2025, com 28 estudos e 2.669 adultos autistas — homens, mulheres e pessoas não binárias —, organizou as estratégias de camuflagem em seis categorias, entre elas supressão e performatividade; imitação e treino social; estratégias cognitivas, como scripts e "equações mentais" para decidir o que dizer; apoio em terceiros que funcionam como intérpretes sociais; práticas não saudáveis, incluindo uso de substâncias e comportamentos restritivos; e seleção de ambientes acolhedores. Os autores registram uma limitação relevante: a amostra é enviesada para mulheres e para o Reino Unido, o que limita a generalização.
Na anamnese, isso muda a pergunta. Em vez de "você se mascara?", cabe perguntar sobre ensaiar conversas antes de fazê-las, sobre imitar deliberadamente o jeito de alguém, sobre depender de uma pessoa específica para traduzir situações sociais, sobre quanto tempo é preciso para se recuperar depois de um evento social. E cabe perguntar sobre uso de álcool e substâncias, porque essa categoria existe e é clinicamente séria.
Vale um cuidado adicional: uma revisão sistemática de 2025 na Development and Psychopathology aponta associações possivelmente bidirecionais entre camuflagem e saúde mental, e os próprios autores registram que ainda é necessário investigar a direcionalidade entre preditores e consequências. Não é relação causal simples, e camuflar não é, em si, patologia — muitas vezes é estratégia de proteção. O alvo terapêutico razoável costuma ser reduzir a necessidade de camuflar, adaptando ambientes, e cuidar do sofrimento associado — não exigir que a pessoa abandone o que a protege.
Existe uma epidemia de autismo?
É uma das perguntas mais frequentes das famílias. Os dados ajudam a responder sem alarmismo.
A rede de vigilância ADDM do CDC, com 16 sítios nos Estados Unidos e ano de vigilância 2022, estimou prevalência de 32,2 por mil crianças de 8 anos — 1 em 31. Mas um número igualmente importante é outro: a variação entre os sítios foi de 9,7 (Laredo, Texas) a 53,1 (Califórnia). Mais de cinco vezes de diferença, no mesmo país, no mesmo ano. Uma variação dessa magnitude entre regiões dificilmente reflete diferença biológica; é mais compatível com diferenças de acesso, rastreamento e disponibilidade de serviços.
Duas observações complementam o quadro. A prevalência foi menor entre crianças brancas não hispânicas (27,7 por mil) do que entre crianças asiáticas ou das ilhas do Pacífico (38,2), indígenas americanas ou nativas do Alasca (37,5), negras (36,6), hispânicas (33,0) e multirraciais (31,9) — um padrão que difere do observado historicamente, e cuja interpretação mais discutida é a redução do subdiagnóstico em minorias, ainda que o relatório não estabeleça essa causa. E o autismo foi 3,4 vezes mais prevalente em meninos (49,2) que em meninas (14,3) — razão que muitos pesquisadores consideram influenciada pela subdetecção feminina discutida acima.
Já uma metanálise global de 2025, com 66 estudos e mais de 21 milhões de crianças de 3 a 18 anos avaliadas com instrumentos padronizados de rastreamento, encontrou prevalência agregada de 0,77%. A diferença expressiva em relação ao número norte-americano decorre em boa medida de metodologia — rastreamento com pontos de corte não equivale a confirmação diagnóstica em avaliação abrangente — e de acesso aos serviços. Por isso não é adequado transpor mecanicamente o "1 em 31" para a realidade brasileira, onde a subidentificação ainda é frequente.
O que a evidência mostra sobre intervenção precoce?
Aqui é preciso honestidade, porque famílias merecem expectativas calibradas — e porque o campo tem resultados que apontam em direções diferentes.
Uma metanálise de dados individuais publicada em 2026 sobre Intervenção Comportamental Intensiva Precoce, com 15 estudos dos quais se obtiveram dados de 341 crianças que receberam a intervenção e 280 em grupos de comparação, encontrou efeitos de 0,66 para comportamento adaptativo, 0,87 para funcionamento intelectual e 1,36 para redução de gravidade, com número necessário para tratar entre 4,1 e 6,9. A intensidade do tratamento — horas semanais — contribuiu significativamente para os desfechos. Os autores concluem que a intervenção deve, no estado atual do conhecimento, ser considerada o tratamento preferencial. Registram, contudo, uma limitação importante: todos os estudos incluídos apresentavam risco sério de viés pela ausência de randomização, o que mantém incerteza sobre a magnitude real dos efeitos.
E o maior ensaio randomizado europeu do Early Start Denver Model, publicado em 2025, não encontrou diferença no desfecho primário: 180 crianças de 19 a 36 meses, avaliação cega, cinco serviços na França e na Bélgica, e nenhuma diferença estatisticamente significativa no quociente de desenvolvimento (diferença média de 3,82 pontos; IC 95%: −1,25 a 8,89; p = 0,14). Os autores concluem que o modelo não pode ser recomendado universalmente e que é preciso identificar subgrupos que possam se beneficiar mais.
Isso não significa abandonar a intervenção precoce, que segue indicada. Significa que a expectativa razoável é de suporte ao desenvolvimento, à comunicação e à autonomia, com resultados que variam entre crianças — e não de normalização cognitiva garantida. Significa também valorizar o que é escalável: uma revisão sistemática de 2026 analisou onze ensaios randomizados de intervenções mediadas por pais em bebês com sinais precoces ou probabilidade elevada de autismo, examinando características das amostras, estratégias de recrutamento, medidas de desfecho e tipos de intervenção. É uma linha promissora e viável em um país com filas e escassez de terapeutas, embora a própria revisão seja uma síntese narrativa dos estudos disponíveis, sem estimativa combinada de efeito — ou seja, ainda não permite quantificar com precisão o benefício esperado.
E as intervenções sem evidência de eficácia?
Famílias chegam de boa-fé com propostas encontradas na internet. O caminho produtivo é conversar com dados, não com julgamento.
Uma revisão sistemática de 2025 sobre medicina complementar e alternativa no autismo, com 39 estudos incluídos, concluiu que a evidência não sustenta a dieta sem glúten e sem caseína e que suplementos de vitaminas e minerais tendem a beneficiar apenas quando há deficiência documentada. Em crianças que já apresentam alta taxa de seletividade alimentar, restringir a dieta sem indicação pode impor risco nutricional, custo e desgaste — motivo pelo qual qualquer restrição alimentar merece ser conduzida com acompanhamento médico e nutricional, e não iniciada por conta própria.
Há ainda um exemplo didático sobre como ler evidência. Uma metanálise de 2025 sobre oxigenoterapia hiperbárica no autismo, com 17 estudos e 890 participantes, encontrou efeitos estatisticamente significativos sobre sintomas centrais e sobre comunicação, cognição e comportamento — e os próprios autores registram, como limitações, a baixa qualidade dos estudos incluídos e a alta heterogeneidade, concluindo que estudos rigorosos ainda são necessários para confirmar a eficácia. Metanálise de estudos frágeis herda a fragilidade: soma o viés com aparência de precisão. O critério de decisão não é a existência da citação, é o desenho do estudo, o risco de viés e a certeza da evidência. Além disso, a oxigenoterapia hiperbárica não é isenta de riscos e não deve ser buscada fora de indicação médica formal.
Neurodiversidade ou tratamento: é preciso escolher?
Uma revisão da arquitetura genética publicada em 2024 na Annual Review of Genetics oferece uma resposta útil. Ela descreve dois cenários genéticos coexistindo sob o mesmo nome: em até 30% dos autistas que apresentam deficiência intelectual, atraso significativo de fala, atraso motor e/ou crises epilépticas, encontram-se variantes raras ou de novo de grande efeito; em outros, atua uma combinação de milhares de variantes comuns, compartilhadas inclusive com maior escolaridade e maior desempenho cognitivo.
Os autores propõem essa heterogeneidade como ponte entre a perspectiva biomédica e a da neurodiversidade — e é uma proposta razoável. É possível oferecer tratamento para o que causa sofrimento e adoecimento sem tratar a condição inteira como doença a ser eliminada. É também o que justifica indicar investigação genética de forma seletiva e individualizada, sobretudo quando há deficiência intelectual, atraso motor ou epilepsia associados. A indicação de exames genéticos é decisão clínica, tomada caso a caso.
Qual a diferença entre psiquiatra infantojuvenil e neuropediatra na investigação de autismo?
Essa dúvida aparece em quase toda primeira consulta, e a resposta é que são papéis distintos, igualmente necessários e complementares.
O neuropediatra ou neurologista infantil é médico com formação em neurologia da infância. Conduz a avaliação neurológica do desenvolvimento: atraso motor, crises epilépticas, alterações no exame neurológico, indicação e interpretação de exames como eletroencefalograma e neuroimagem, e boa parte da investigação genética e de síndromes associadas.
O psiquiatra da infância e adolescência — médico com formação em psiquiatria e subespecialização em psiquiatria infantojuvenil — trabalha o diagnóstico psiquiátrico e o manejo do sofrimento e das condições que coexistem com o TEA: ansiedade, depressão, TDAH, transtornos do sono, questões alimentares, irritabilidade grave e risco de suicídio, além do acompanhamento longitudinal e, quando indicado, do tratamento medicamentoso dessas comorbidades.
Não é escolha excludente, e nenhuma das duas especialidades substitui a outra. Muitas famílias precisam das duas avaliações, e os encaminhamentos são mútuos: encaminha-se ao neuropediatra quando há atraso motor, suspeita de crise epiléptica ou indicação de investigação etiológica; recebem-se encaminhamentos quando a questão central passa a ser humor, ansiedade, comportamento ou sono. Fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia e psicopedagogia compõem esse cuidado, cada uma com contribuição própria e insubstituível.
Por que investigar comorbidades é tão importante quanto o diagnóstico?
Porque parte relevante do sofrimento atribuído ao autismo pode corresponder a comorbidade não tratada.
Uma metanálise de 2023, que triou 19.932 estudos e incluiu 340 publicações com cerca de 590 mil participantes, identificou as condições coocorrentes mais frequentes: transtorno do desenvolvimento da coordenação, problemas de sono, queixas gastrointestinais, TDAH, transtornos de ansiedade, sobrepeso/obesidade, transtornos alimentares, transtornos da eliminação, comportamento disruptivo e sintomas somáticos. As prevalências variaram conforme a faixa etária e o desenho do estudo.
Na prática clínica, isso significa que uma "piora comportamental" merece primeiro as perguntas básicas: está dormindo? Está com dor? Está constipado? Está ansioso? Houve mudança de rotina ou de ambiente? Em pacientes com comunicação verbal limitada, essa revisão sistemática de sono, sintomas gastrointestinais, dor, humor e ansiedade é insubstituível — comportamento pode ser a única via de expressão de um problema clínico.
Há ainda um dado que exige seriedade. Uma metanálise de 2024, com dez estudos e 10,4 milhões de pessoas, estimou risco relativo de suicídio de 2,85 em pessoas autistas (intervalo de incerteza de 95%: 2,05–4,03), significativamente maior em mulheres autistas que em homens autistas. Os autores registram que os estudos disponíveis são poucos e limitados em cobertura geográfica, e sublinham que estratégias eficazes de prevenção podem reduzir substancialmente essa carga. Por isso a avaliação de risco não é item opcional no acompanhamento, especialmente em mulheres, adolescentes e pessoas diagnosticadas tardiamente. E por isso o atraso diagnóstico feminino não é questão de rótulo: é questão de desfecho.
Se você ou alguém próximo estiver com pensamentos de morte ou de se machucar, procure atendimento imediatamente. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, e emergências podem ser atendidas pelo SAMU (192) ou em qualquer pronto-socorro.
O que isso significa na prática
Resumindo o que essa literatura sustenta:
- Diagnóstico tardio não é diagnóstico duvidoso. Adolescentes e adultos que chegam com TDAH, depressão ou trauma merecem que a hipótese de TEA seja considerada, e não descartada apenas por ausência de suspeita na infância.
- Histórico psiquiátrico prévio é sinal para ampliar a investigação, não explicação final — sobretudo quando a resposta ao tratamento é parcial. Isso não invalida os diagnósticos anteriores, que frequentemente coexistem com o TEA e seguem exigindo tratamento.
- Rastreio negativo não exclui autismo, sobretudo em adultos sem deficiência intelectual ou de linguagem. A avaliação exige história de desenvolvimento detalhada, atenção ao custo subjetivo do desempenho social e, quando possível, informações de alguém que tenha convivido com a pessoa na infância.
- Camuflagem se investiga com perguntas concretas — scripts, imitação, intérprete social, exaustão pós-interação, uso de substâncias — e não se combate; o que se aborda é a necessidade dela e o sofrimento associado.
- Comorbidades entram no protocolo: sono, sintomas gastrointestinais, dor, humor, ansiedade, TDAH e avaliação de risco de suicídio, revisados periodicamente.
- Intervenções se discutem com o desenho do estudo na mão, com clareza sobre o que a evidência sustenta, o que não sustenta e o que permanece incerto.
- Diagnóstico é ferramenta, não sentença. Ele pode servir para adaptar ambiente, orientar escola e trabalho, tratar o que causa sofrimento e oferecer à pessoa uma linguagem para a própria experiência.
Um alerta necessário: reconhecer-se em descrições como as deste texto não constitui diagnóstico, e a hipótese de TEA não é motivo para interromper, reduzir ou modificar por conta própria qualquer tratamento em andamento. Mudanças de medicação ou de plano terapêutico devem ser discutidas com o profissional que acompanha o caso. O passo seguinte a uma suspeita é sempre o mesmo: buscar avaliação com profissional habilitado, que possa ouvir a história inteira e examinar o caso de forma individualizada.
Este texto tem finalidade exclusivamente informativa e educativa. Não substitui a consulta e a avaliação médica individual, não permite autodiagnóstico e não indica tratamento. Nenhum resultado é prometido ou garantido: a resposta a qualquer abordagem varia de pessoa para pessoa. Cada paciente tem uma história, um contexto e necessidades próprias, que só podem ser avaliados presencialmente ou em teleconsulta regular.
Dra. Roberta Lara de Oliveira Borges — Médica psiquiatra. CRM-GO 16006 | RQE 11832 (Psiquiatria) | RQE 13317 (Psiquiatria da Infância e Adolescência). Atendimento em Goiânia-GO.
Perguntas frequentes
- Como sei se sou autista se nunca desconfiaram disso na minha infância?
- Não é possível saber por leitura ou teste on-line, e este texto não permite autodiagnóstico. Alguns achados justificam procurar avaliação: exaustão após interações sociais, necessidade de ensaiar conversas, sensibilidade sensorial, interesses muito intensos e tratamentos anteriores com resposta apenas parcial. O caminho é a avaliação clínica presencial.
- Meu psiquiatra disse que eu tenho ansiedade e depressão. Ainda assim pode ser autismo?
- Pode, e a coexistência é frequente. Na coorte sueca de 2025, 54,2% das mulheres e 40,9% dos homens autistas receberam outro diagnóstico psiquiátrico antes do de autismo. Isso não significa que o diagnóstico anterior estivesse errado: ansiedade e depressão costumam coexistir com o TEA e seguem exigindo tratamento. Converse com seu médico.
- Fiz um teste de autismo na internet e deu negativo. Isso descarta?
- Não, e um resultado positivo também não confirma nada. Instrumentos de rastreamento não são exames diagnósticos, e estratégias compensatórias podem reduzir a pontuação, especialmente em adultos sem deficiência intelectual ou de linguagem. Testes on-line não têm validade clínica. Se a queixa persiste, a investigação deve seguir com um profissional.
- Diagnóstico tardio quer dizer que perdemos a janela de tratamento?
- Não existe uma porta que se fecha. O que muda com a idade é o foco do trabalho: em adultos, costuma envolver adaptar ambientes, tratar comorbidades como ansiedade, depressão e TDAH, avaliar risco de suicídio e reduzir a necessidade de camuflar. Os resultados variam de pessoa para pessoa e são definidos em avaliação individual.
- Vale a pena a dieta sem glúten e sem caseína para meu filho autista?
- A revisão sistemática de 2025 sobre medicina complementar no autismo não encontrou evidência que sustente a dieta sem glúten e caseína. Como muitas crianças autistas já têm seletividade alimentar, restringir sem indicação pode trazer risco nutricional. Nunca inicie restrições ou suplementos por conta própria: converse com quem acompanha seu filho.
- Preciso de neuropediatra ou de psiquiatra infantil para investigar autismo?
- Depende do quadro, e muitas vezes são os dois. Neuropediatras e neurologistas infantis conduzem a investigação neurológica: crises epilépticas, atraso motor, questões genéticas. Psiquiatras infantojuvenis cuidam do diagnóstico psiquiátrico e das comorbidades como ansiedade, TDAH, humor e sono. As especialidades são complementares e se encaminham mutuamente.
- Descobri que posso ser autista. Devo parar meu tratamento atual?
- Não. A hipótese de TEA nunca é motivo para suspender ou alterar medicação e acompanhamento por conta própria, o que pode causar piora e sintomas de retirada. Leve a hipótese ao profissional que já acompanha você: o diagnóstico de autismo costuma somar-se ao cuidado existente, e qualquer ajuste é decisão médica.
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