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ROBERTA LARAPsiquiatria

Medo de ir ao psiquiatra: o que realmente acontece na consulta

Por Dra. Roberta Lara de Oliveira Borges

MÉDICA · CRM-GO 16006 · Psiquiatria RQE 11832 · Psiquiatria da Infância e Adolescência RQE 13317

Publicado em · 14 min de leitura

A primeira consulta psiquiátrica é, em grande parte, conversa e avaliação clínica: história de vida, sintomas, contexto familiar e exame do estado mental. Internação é exceção prevista em lei apenas quando recursos ambulatoriais falham. Os dados da OMS sobre o Brasil registram um volume de atendimentos ambulatoriais muito maior que o de internações.

Existe uma cena que se repete no meu consultório com uma constância impressionante. A pessoa senta, respira fundo e diz alguma versão disto: "Doutora, eu marquei essa consulta faz oito meses e desmarquei três vezes." Às vezes o número é maior. Às vezes são anos.

Quero começar dizendo o mais importante: esse medo não é bobagem, não é frescura e não é falta de coragem. Ele foi construído por décadas de imagens de manicômio no cinema, por piadas sobre "camisa de força", por histórias mal contadas em família e por um vocabulário social que ainda trata sofrimento mental como defeito de caráter. Quem sente esse receio está reagindo a algo real — só que o algo real é o estigma, não a consulta.

Este texto é uma tentativa de fazer o que costumo fazer nos primeiros vinte minutos de atendimento: nomear cada medo, um por um, e olhar para ele com informação.

"Se eu for, eles vão me internar?"

Este é o medo número um, e ele é o mais fácil de responder — porque a resposta está escrita na lei brasileira, em texto que qualquer pessoa pode ler.

A Lei nº 10.216/2001, que organiza o cuidado em saúde mental no país, diz no Art. 4º: "A internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes." O §3º do mesmo artigo veda expressamente a internação em instituições com características asilares. E o Art. 2º, parágrafo único, garante à pessoa o direito de "ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental" (inciso IX) e "em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos possíveis" (inciso VIII).

Observe a lógica disso: a consulta ambulatorial — a que você está com medo de marcar — é justamente o "recurso extra-hospitalar" que a lei manda esgotar antes de qualquer internação. Procurar um psiquiatra não é a porta de entrada da internação. É o caminho que a legislação prioriza.

Há ainda uma confusão frequente sobre quem pode internar alguém. O Art. 6º da mesma lei estabelece que "a internação psiquiátrica somente será realizada mediante laudo médico circunstanciado que caracterize os seus motivos", e seu parágrafo único define três modalidades: voluntária (com consentimento do usuário), involuntária (sem consentimento e a pedido de terceiro) e compulsória — esta última, "aquela determinada pela Justiça". O Art. 9º complementa que a internação compulsória é determinada, de acordo com a legislação vigente, pelo juiz competente. E a internação involuntária precisa ser comunicada ao Ministério Público Estadual em até setenta e duas horas (Art. 8º, §1º), com o mesmo procedimento na alta.

Ou seja: não existe um médico decidindo sozinho, numa sala fechada, tirar a liberdade de alguém que foi lá conversar sobre insônia e angústia. Há critério clínico documentado e há fiscalização externa.

E os números acompanham a lei. O perfil do Brasil no Mental Health Atlas 2020, da Organização Mundial da Saúde, registrou 15.059,40 atendimentos ambulatoriais por 100 mil habitantes contra 125,68 admissões hospitalares por 100 mil. São duas taxas populacionais independentes, e não uma probabilidade individual — mas a proporção entre elas dá a dimensão do desenho do sistema: o cuidado acontece esmagadoramente fora do hospital. O mesmo perfil contabiliza 2.667 serviços comunitários de saúde mental no país, contra 114 hospitais psiquiátricos. Dados do Ministério da Saúde mostram 2.836 CAPS habilitados em junho de 2022 — serviços descritos oficialmente como "de caráter aberto e comunitário".

Uma observação de honestidade: o Atlas da OMS registra "-" para a proporção de internações involuntárias no Brasil. O país não reportou esse dado. É uma lacuna real, e prefiro apontá-la a fingir que temos um retrato completo.

"Eu vou ficar dependente do remédio para sempre?"

Aqui preciso ser precisa, porque o medo existe — mas costuma estar endereçado à classe errada de medicamento.

Antidepressivos não causam adicção. Não há busca compulsiva, não há escalada de dose, não há tolerância no sentido aditivo. O que existe são sintomas de descontinuação quando a medicação é interrompida — um fenômeno de reajuste farmacológico, coisa diferente.

A maior revisão sistemática já feita sobre isso, publicada por Henssler e colaboradores na Lancet Psychiatry em 2024, reuniu 79 estudos e 21.002 pacientes. Encontrou que 31% relataram ao menos um sintoma após parar o antidepressivo — mas 17% relataram sintomas após parar placebo. A diferença atribuível ao fármaco ficou em torno de 15%, algo como uma em cada seis ou sete pessoas. Sintomas classificados como graves ocorreram em torno de 3% de quem parou o antidepressivo — também aqui com uma parcela observada nos grupos placebo, o que reforça que a maioria dos quadros é leve e transitória.

O dado do placebo é a chave pedagógica que uso com meus pacientes: boa parte do que se atribui à "abstinência" aparece também em quem nunca tomou o remédio — expectativa, ansiedade antecipatória, sintomas residuais da própria doença. O comentário editorial de Glyn e Gemma Lewis, no mesmo número da revista, discute exatamente a nomenclatura: "abstinência" é termo reservado ao campo da dependência de substâncias, e aplicá-lo a antidepressivos é impreciso. Devo registrar que esses números geraram debate: houve correspondência crítica publicada na própria revista, com réplica dos autores, sobretudo quanto ao método de estimar a diferença em relação ao placebo. A distinção conceitual entre descontinuação e adicção, porém, não é o ponto controverso.

Nada disso significa que se possa parar por conta própria. Justamente porque existem sintomas de descontinuação, a retirada de qualquer antidepressivo se faz de forma gradual e acompanhada — é uma conversa com quem prescreveu, não uma decisão solitária.

Onde o risco de dependência é real: nos benzodiazepínicos. A Organização Mundial da Saúde recomendou em 2023, com força forte (embora com certeza da evidência baixa), que benzodiazepínicos não sejam usados no tratamento de transtorno de ansiedade generalizada e transtorno de pânico em adultos; para sintomas agudos e graves, no máximo de 3 a 7 dias. O grupo que elaborou a recomendação registrou preocupação com a frequente superprescrição desses fármacos.

No Brasil, um estudo transversal com 40.402 participantes publicado na PLoS One em 2024, a partir de registros de dispensação em farmácias públicas entre 2018 e 2022, encontrou uso prolongado em 29,1% dos usuários — quase um em cada três — chegando a 34,8% entre idosos.

Há um paradoxo aqui que me parece importante nomear com cuidado, e ele não é sobre pessoas: é sobre acesso. Quem adia a consulta por medo de "ficar dependente" muitas vezes atravessa anos usando exatamente a classe com potencial aditivo. O que faz diferença nesse cenário não é qual profissional prescreveu, mas a existência de reavaliação periódica — alguém revisando, de tempos em tempos, se aquele medicamento ainda faz sentido. Essa revisão é possível em qualquer ponto da rede, e é um dos motivos pelos quais vale marcar a consulta em vez de adiá-la.

"Vão me dopar, vou virar um zumbi"

Vale separar duas coisas: sedação é um efeito adverso possível de alguns medicamentos, e varia muito conforme a substância e a dose. Não é o objetivo do tratamento — o objetivo é o oposto, devolver funcionamento.

Sobre a tolerabilidade geral dos antidepressivos, a metanálise em rede de Cipriani e colaboradores, publicada no Lancet em 2018, reuniu 522 ensaios duplo-cegos com 116.477 participantes — incluindo mais de cem estudos até então não publicados, obtidos junto às farmacêuticas. Olhando a aceitabilidade (abandono do tratamento por qualquer causa), dois fármacos — agomelatina e fluoxetina — tiveram menos abandono que o placebo, e apenas um (clomipramina) teve mais. Esse desfecho mede permanência no tratamento, não sedação especificamente; mas indica que, na média, esses medicamentos são tolerados de forma comparável ao placebo.

Isso não significa ausência de efeitos adversos. Eles existem, variam bastante entre fármacos e merecem ser conversados abertamente. Os próprios autores classificaram a certeza da evidência como moderada a muito baixa e apontaram risco de viés em parte dos ensaios. O que a evidência sustenta é que os efeitos costumam ser manejáveis e que a escolha do medicamento importa — decisão que se toma junto, não sobre a pessoa. Se um remédio está deixando você lento ou apagado, isso se diz na consulta: dose e escolha se ajustam.

"Vão descobrir no meu trabalho"

O sigilo médico não é gentileza minha. É dever ético cuja violação configura infração disciplinar. O Código de Ética Médica, Resolução CFM nº 2.217/2018, no Art. 73, veda ao médico revelar fato conhecido no exercício da profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento por escrito do paciente. O parágrafo único mantém a proibição mesmo que o fato seja de conhecimento público, mesmo após a morte do paciente, e inclusive no depoimento como testemunha — hipótese em que o médico comparece e declara seu impedimento. O Art. 76 veda revelar informações confidenciais obtidas no exame médico de trabalhadores, "inclusive por exigência dos dirigentes de empresas ou de instituições" — com a ressalva, prevista no próprio artigo, de situações em que o silêncio puser em risco a saúde dos empregados ou da comunidade. A Lei 10.216/2001 reforça o direito ao sigilo no Art. 2º, parágrafo único, IV.

São exceções estreitas e excepcionais. A regra, no cotidiano de um tratamento psiquiátrico ambulatorial, é o sigilo. Traduzindo para a vida prática: tratar-se e contar ao empregador são duas decisões separadas. A segunda é sua, e só sua — e é um assunto que você pode trazer para a consulta antes de decidir.

Sobre o que acontece quando alguém escolhe contar, o dado disponível vem da Holanda: em estudo com 332 trabalhadores que relataram ter ou já ter tido problemas de saúde mental, cerca de 73% contaram ao gestor; 64,2% do total revelaram e tiveram experiência positiva, contra 9,0% que revelaram e tiveram experiência negativa. A experiência ruim existe, mas foi minoritária nessa amostra. Preciso registrar as lacunas: trata-se de uma amostra específica, não de um retrato do mercado de trabalho em geral, e não localizei estudo brasileiro equivalente com dados nacionais representativos. A transposição direta para o nosso contexto não está validada.

"Isso é fraqueza minha, eu deveria dar conta sozinho"

Uma metanálise de 27 estudos publicada no British Journal of Psychiatry em 2017 trouxe um achado que considero dos mais úteis da literatura sobre estigma. O que se associou a menor busca de ajuda foram as atitudes pessoais de quem sofre — a própria atitude negativa diante de procurar ajuda (OR = 0,80) e as atitudes estigmatizantes em relação a pessoas com transtorno mental (OR = 0,82). Já o estigma público percebido — o que a pessoa imagina que a sociedade pensa — não se associou de forma significativa à busca de ajuda.

São associações observacionais, não relação de causa e efeito. Mas a direção é sugestiva: o obstáculo parece morar mais dentro da própria cabeça do que na opinião do vizinho. E é exatamente aí que informação correta consegue agir.

No Brasil, a Associação Brasileira de Psiquiatria mantém desde 2014 a campanha permanente Psicofobia, coordenada pelo psiquiatra Antônio Geraldo da Silva. O termo nasceu em 2011, depois de uma entrevista em que o humorista Chico Anysio revelou 24 anos de tratamento psiquiátrico para depressão — e o 12 de abril, seu aniversário, tornou-se o Dia Nacional de Combate à Psicofobia. Vinte e quatro anos de tratamento, com uma carreira pública de altíssimo desempenho no mesmo período. É um contraexemplo direto ao "só louco vai" e ao "vão me dopar".

Vale um comentário sobre algo que vejo no atendimento infantojuvenil: famílias que procuram primeiro a neurologia ou a neuropediatria antes de considerar a psiquiatria. Esse é um caminho legítimo e frequentemente o mais indicado — são especialidades parceiras, e boa parte do meu trabalho acontece em diálogo com neuropediatras, pediatras, psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. Cada uma dessas avaliações responde a perguntas diferentes, e não existe ordem certa universal. O que às vezes me chega no relato das próprias famílias é o desconforto de sentir que uma porta lhes pareceu socialmente mais aceitável que a outra. Quando esse desconforto aparece, vale conversar sobre ele — não porque uma especialidade seja melhor, mas porque a escolha merece ser feita pela pergunta clínica, e não pelo peso da palavra.

Quanto custa esperar?

Custa, e dá para medir. O inquérito domiciliar realizado na Região Metropolitana de São Paulo com 5.037 respondentes, publicado em 2022, encontrou medianas de atraso entre o início do quadro e o primeiro contato com tratamento de 3 a 13 anos nos transtornos do humor, de 1 a 36 anos nos de ansiedade e de 8 a 14 anos nos por uso de substâncias. Mais: apenas 63,6% das pessoas com transtorno de ansiedade chegaram a fazer contato com tratamento em algum momento.

Anos. Às vezes décadas. E isso diz muito mais sobre acesso, informação e estigma do que sobre a vontade de cada pessoa.

Sobre o preço clínico dessa espera, a evidência mais robusta vem do campo das psicoses. Uma metanálise de 33 amostras publicada em 2014 mostrou que durações mais longas de psicose não tratada se correlacionam com pior desfecho sintomático, menor probabilidade de remissão e pior funcionamento social — correlações que os próprios autores descrevem como pequenas (em torno de 0,13 a 0,18), porém majoritariamente consistentes. Uma metanálise mais recente, de 2025, com 34 estudos e 6.425 participantes, encontrou associação entre duração longa e menor remissão, sintomas negativos mais intensos e mais tentativas de suicídio. É preciso honestidade quanto ao alcance: essa evidência é mais forte para psicoses e menos robusta para depressão e ansiedade, e não autoriza afirmar uma relação causal simples. Mas a direção do achado é consistente.

Se você demorou, isso não significa que perdeu a janela. Significa apenas que começar agora continua valendo a pena.

Então o que acontece, de fato, na primeira consulta?

Conversa. Muita conversa.

A Practice Guideline for the Psychiatric Evaluation of Adults, da American Psychiatric Association, descreve doze domínios da avaliação clínica: o motivo da avaliação; a história da queixa atual; história psiquiátrica prévia; uso de substâncias; história médica geral; história do desenvolvimento, psicossocial e sociocultural; história ocupacional; história legal; história familiar; revisão de sistemas; exame físico; e exame do estado mental — este descrito como coleta sistemática de dados a partir de observação e de perguntas específicas. A diretriz dedica seção própria a privacidade e confidencialidade. (Lacuna que registro: não localizei diretriz brasileira equivalente padronizando publicamente esses componentes.)

Traduzindo: eu pergunto como você dorme, como come, como está no trabalho e em casa, o que mudou e quando, o que já tentou, o que acontece na sua família. Observo como você fala, o ritmo do pensamento, o humor. Nada disso é teste que se passa ou se reprova.

Medicação não é o primeiro nem o único desfecho possível de uma primeira consulta. Muitas vezes o plano envolve psicoterapia, ajustes concretos de rotina e sono, acompanhamento por algumas semanas para entender melhor o quadro. Quando a medicação entra, entra explicada: por que, o que se espera, quanto tempo, quais efeitos vigiar, como se retira depois. E vale dizer que cada caso é diferente — o que descrevo aqui é o formato geral de uma avaliação, não uma previsão do que acontecerá no seu.

Se você ainda está com medo, comece por aqui

  • Escreva o medo antes de ir. Uma frase basta: "tenho medo de ser internada", "não quero remédio". Leve o papel. Comece a consulta por ele. É pergunta legítima, e responder isso é parte do meu trabalho.
  • Você pode perguntar antes de aceitar qualquer coisa. Por que essa proposta, quais alternativas, o que acontece se eu esperar. Consentimento informado não é formalidade.
  • Leve alguém de confiança, se ajudar. E leve receitas ou exames anteriores, se tiver.
  • Sobre benzodiazepínicos: se você já usa há meses ou anos, isso merece conversa específica — e nunca interrupção por conta própria. Retirada de psicotrópico se faz de forma gradual e acompanhada.
  • Se você já toma antidepressivo, o mesmo vale: dúvidas sobre continuar, ajustar ou retirar são assunto de consulta, nunca de decisão solitária.
  • Marcar não é assinar contrato. Uma primeira consulta é uma avaliação. Você sai dela com informação, e a decisão sobre os próximos passos é construída junto.
  • Se houver pensamentos de morte ou de se machucar, isso é urgência e não deve esperar consulta agendada. No Brasil, o CVV atende pelo telefone 188, 24 horas, gratuitamente; em emergência, procure um pronto-socorro ou ligue 192.

Se você adiou por anos, não há nada de que se envergonhar nesse adiamento. Ele tem explicação histórica e social. O que ouço com frequência de quem finalmente vem é que a consulta foi diferente do que se imaginava — e é para isso que serve conhecer, de antemão, o que de fato acontece do lado de dentro.


Este texto tem caráter exclusivamente informativo e educativo. Não estabelece diagnóstico, não substitui a consulta médica presencial nem a avaliação individualizada de cada caso, e não deve ser usado para iniciar, alterar ou interromper qualquer tratamento por conta própria. Procure um médico.

Dra. Roberta Lara de Oliveira Borges — Médica. CRM-GO 16006. Psiquiatria (RQE 11832) e Psiquiatria da Infância e Adolescência (RQE 13317). Goiânia-GO.

Perguntas frequentes

Se eu contar tudo o que sinto, o psiquiatra pode me internar na hora?
Não. A Lei 10.216/2001, Art. 4º, determina que internação só é indicada quando os recursos fora do hospital se mostram insuficientes. O Art. 6º exige laudo médico circunstanciado para qualquer internação, e define a compulsória como aquela determinada pela Justiça. A consulta ambulatorial é exatamente o recurso que a lei manda priorizar.
Antidepressivo vicia? Vou ficar preso nele para sempre?
Antidepressivo não causa adicção: não há busca compulsiva nem escalada de dose. Pode haver sintomas de descontinuação ao parar. Na metanálise de Henssler (Lancet Psychiatry, 2024), 31% relataram algum sintoma após o fármaco, mas 17% após placebo. Justamente por isso, a retirada deve ser gradual e acompanhada — nunca por conta própria.
E o rivotril? Ouvi dizer que quem toma nunca mais larga.
Aqui o risco de dependência é real. A OMS recomendou em 2023 não usar benzodiazepínicos no tratamento de ansiedade generalizada e pânico, e em sintomas agudos limitá-los a 3 a 7 dias. Se você já usa há meses, converse com um médico. Nunca interrompa por conta própria: a retirada precisa ser gradual e acompanhada.
Meu chefe pode descobrir que eu faço tratamento psiquiátrico?
Não por meio do médico, salvo em hipóteses legais estreitas. O Art. 73 do Código de Ética Médica proíbe revelar o que se sabe pelo exercício da profissão, ressalvados motivo justo, dever legal ou seu consentimento por escrito. O Art. 76 veda revelar informações a dirigentes de empresas, com ressalva para risco à saúde de empregados ou da comunidade. Na prática de um tratamento ambulatorial, a regra é o sigilo.
Vão me encher de remédio e eu vou virar um zumbi?
Medicação não é o primeiro nem o único desfecho de uma primeira consulta. A diretriz da APA descreve a avaliação como doze domínios de história clínica e exame do estado mental — basicamente conversa e observação. Sedação é um efeito adverso possível de alguns fármacos, não o objetivo do tratamento, e se ajusta conversando com quem prescreve.
Procurar psiquiatra não é sinal de que eu não dei conta sozinho?
Uma metanálise de 27 estudos (British Journal of Psychiatry, 2017) encontrou que as atitudes pessoais negativas diante de buscar ajuda se associam a menor procura por tratamento, enquanto o estigma público percebido não teve associação significativa. São associações, não causa e efeito — mas sugerem que o obstáculo é o estigma, não a sua capacidade. Sofrimento mental é questão de saúde.

Referências

  1. 1.BRASIL. Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Arts. 2º, 4º, 6º, 8º e 9º. D.O.U. de 9.4.2001. [Texto conferido em planalto.gov.br] https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10216.htm
  2. 2.CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM). Código de Ética Médica — Resolução CFM nº 2.217, de 27 de setembro de 2018. Capítulo IX (Sigilo Profissional), arts. 73 a 79. Art. 76 inclui ressalva expressa para risco à saúde dos empregados ou da comunidade. https://portal.cfm.org.br/images/PDF/cem2019.pdf
  3. 3.WORLD HEALTH ORGANIZATION. Mental Health Atlas 2020 — Country profile: Brazil. Genebra: OMS, 2021. Atendimentos ambulatoriais: 15.059,40/100 mil; admissões hospitalares: 125,68/100 mil; 2.667 serviços comunitários; 114 hospitais psiquiátricos; proporção de admissões involuntárias não reportada. https://cdn.who.int/media/docs/default-source/mental-health/mental-health-atlas-2020-country-profiles/bra.pdf
  4. 4.BRASIL. Ministério da Saúde. Dados da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Coordenação de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas – CGMAD/Deciv/Saps/MS, junho de 2022. https://www.gov.br/saude/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/caps/raps/arquivos/dados-da-rede-de-atencao-psicossocial-raps.pdf/
  5. 5.Henssler J, Schmidt Y, Schmidt U, Schwarzer G, Bschor T, Baethge C. Incidence of antidepressant discontinuation symptoms: a systematic review and meta-analysis. Lancet Psychiatry. 2024 Jul;11(7):526-535. doi: 10.1016/S2215-0366(24)00133-0. PMID 38851198. [79 estudos, 21.002 pacientes; 31% vs 17% placebo; ~15% atribuível ao fármaco; sintomas graves em torno de 3%] https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38851198/
  6. 6.Lewis G, Lewis G. Discontinuation symptoms of antidepressants. Lancet Psychiatry. 2024 Jul;11(7):485-486. doi: 10.1016/S2215-0366(24)00174-3. PMID 38851199. [Comentário editorial] https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38851199/
  7. 7.Incidence of antidepressant withdrawal symptoms — Correspondence e Authors' reply. Lancet Psychiatry. 2024. doi: 10.1016/S2215-0366(24)00273-6. [Correspondência crítica à metanálise de Henssler e réplica dos autores] https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39300635/
  8. 8.WORLD HEALTH ORGANIZATION. Benzodiazepines in treatment of adults with generalized anxiety disorder and/or panic disorder. mhGAP Evidence Centre, 2023. Recomendação FORTE, certeza da evidência BAIXA. Uso agudo limitado a 3–7 dias no máximo. https://www.who.int/teams/mental-health-and-substance-use/treatment-care/mental-health-gap-action-programme/evidence-centre/anxiety/benzodiazepines-in-treatment-of-adults-with-generalized-anxiety-disorder-and-or-panic-disorder
  9. 9.Gray B, Asrat B, Brohan E, Chowdhury N, Dua T, van Ommeren M. Management of generalized anxiety disorder and panic disorder in general health care settings: new WHO recommendations. World Psychiatry. 2024 Feb;23(1):160-161. doi: 10.1002/wps.21172. PMID 38214633. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10785994/
  10. 10.Barboza Zanetti MO, Dos Santos I, Durante JC, Varallo FR, Pereira LRL, Miasso AI. Consumption patterns and factors associated with inappropriate prescribing of benzodiazepines in Primary Health Care settings. PLoS One. 2024 Sep 4;19(9):e0309984. doi: 10.1371/journal.pone.0309984. PMID 39231170. [40.402 participantes; uso prolongado em 29,1%; 34,8% entre idosos] https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39231170/
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  12. 12.Dewa CS, van Weeghel J, Joosen MCW, Gronholm PC, Brouwers EPM. Workers' Decisions to Disclose a Mental Health Issue to Managers and the Consequences. Front Psychiatry. 2021 Mar 26;12:631032. doi: 10.3389/fpsyt.2021.631032. PMID 33841203. [Países Baixos; 332 trabalhadores com problemas de saúde mental atuais ou passados; 73,2% revelaram] https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33841203/
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  18. 18.AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Practice Guideline for the Psychiatric Evaluation of Adults, Second Edition. Work Group on Psychiatric Evaluation (Michael J. Vergare, M.D., Chair). Domínios III.A a III.L da avaliação clínica. https://www.psychiatry.org/File%20Library/Psychiatrists/Practice/Clinical%20Practice%20Guidelines/psychevaladults.pdf

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